Memórias Intensivas
Um olhar emocional sobre o serviço de medicina intensiva em tempos de pandemia




















Privilégio meu
privilégio meu
testemunhar
a mais densa
de todas as densidades
onde se perscruta
a essência da vida
onde a ideia de imortalidade
se desfecha
na consciência
da ténue fronteira
entre o aqui e o agora
entre a plenitude do respirar
e o nada
ou quase nada
privilégio meu
testemunhar
a nobreza do gesto
entre expressões
onde se cruza a reflexão
a luta
o cansaço
a tenacidade
a beleza
pela nudez
da entrega
com o grito
da dor
da solidão
do abandono
sobre si
de quem padece
e esquece
que existe
quase
resvalando essa ténue fronteira
entre
a vida
e a morte
revelo assim
densidade humana
em cada disparo
libertando o meu olhar
no desejo
íntimo
de dignificar cada dádiva
cada pessoa
cada pedaço de cor
cada cadeira
cada porção de chão
cada matéria opaca
cada sinal de doença
cada grade
cada sinal pandémico
despindo-os de sombras
e descortinando
a luz
que em si encerram
que insisto perenizar
eternizar
numa imagem fotográfica
numa memória
sem tempo
num abraço à humanidade
em ciclo
de devastação
cada olhar
cada imagem
eco de cada sentir
meu
naquelas salas
via gente humana
muito humana
num movimento
pela vida
no exterior chovia
no exterior fazia sol
no exterior fazia vento
no exterior fazia frio
naquele interior
que percorria
e me perdia
com uma câmara na mão
imbuída
sim
e me perdia
em silêncio
pintava um cenário
de autenticidades
de interioridades
naquele interior
pincelava em cada disparo
sentidos de sentires
percebendo que tudo
mas tudo
entre mãos
que apelam
se resignam
agem
lutam
expressões fortes
refletindo
âmagos
drapeados de batas
sinaléticas
tudo tem alma
o tudo que compõe
a história que vos quero contar
neste jogo de imagens
vida
é a palavra
Clara Ramalhão
2 de fevereiro de 2021


Entrevista a Clara Ramalhão no lançamento do livro "Memórias Intensivas"
